Reflexões da Redação
20 DE junho DE 2019 - 0:15

País do outro mundo quer mudar padrão de plugues e tomadas novamente

Reflexão dos editores deste portal

Certa vez publicamos aqui neste espaço uma afirmação do destacado jornalista Ricardo Boechat, falecido no início deste ano, de que o Brasil é uma nação diferenciada, onde quase tudo que acontece beira o esquisito, sem algo parecido no mundo. Não raras vezes, diante de notícias estranhas, ele disparava a frase: “existem países do primeiro mundo, do terceiro mundo e o Brasil, que é do outro mundo”.

E esta afirmação, usada muitas vezes de forma jocosa, transforma-se, mais uma vez, numa grande preocupação, no momento em que se divulga que o presidente da República prepara uma norma para revogar o uso compulsório da tomada de três pinos, a materialização do padrão brasileiro de plugues e tomadas.

Como se fosse uma banalidade qualquer, o governo decide politizar a adoção de um equipamento que veio para garantir a segurança das instalações elétricas prediais no país, identificando-o como a ‘tomada do PT’.

Talvez não saibam os assessores presidenciais, inclusive o secretário especial de Produtividade e Competitividade, Carlos Alexandre da Costa, que toda a discussão no Brasil teve início no final dos anos 90 (a norma NBR 14136 foi estabelecida inicialmente em 1998 pela ABNT), durante o governo FHC, que assinou a obrigatoriedade no ano 2000. Em 2011, durante o governo Dilma, teve início a fase de implantação efetiva do padrão brasileiro.

Em nossa avalição, o principal argumento favorável ao terceiro pino, é, sem dúvida, a segurança, uma vez que o recuo no encaixe impossibilita, por exemplo, que uma criança encoste o dedo no pino semi-encaixado e energizado. Outra situação importante é que diminuiu também a chance de o plugue se soltar facilmente da tomada, diminuindo o risco de incêndio, e as perdas de energia devido a conexões inseguras.

Neste contexto, a Abinee – Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica – alerta para os riscos decorrentes de uma eventual mudança na legislação que estabelece o terceiro pino. A entidade, que participou ativamente, ao lado da ABNT, de todos os debates e audiências desde o início do processo, afirma que o terceiro pino nas tomadas e nos plugues tem uma razão de ser, justificada tecnicamente pela necessidade que alguns aparelhos têm de conexões de aterramento (o chamado fio terra). É o caso de refrigeradores, fogões, ferros de passar roupa, fornos de micro-ondas, etc.

A mudança trouxe efeitos positivos, mostra a Abinee. Entre 2000 e 2010, antes da adoção do padrão, a média anual de acidentes fatais provocados por choques elétricos era de 1,5 mil ocorrências. Hoje (números de 2018), a média é de 600 ocorrências anuais, uma queda de 150%. Com a construção de novos edifícios com padrão brasileiro de plugues e tomadas, o número de acidentes fatais tende a diminuir ainda mais.

Além do aspecto de segurança, o que motivou a escolha foi a melhor relação custo-benefício para o consumidor, que levou em conta que 80% dos aparelhos elétricos à época eram atendidos pelo novo padrão.

A Abinee ressalta que hoje não há um padrão internacional único estabelecido como regra e que todo país que preza por normas organizadas desenvolveu seu próprio padrão, de acordo com as características de seus mercados. Os países dispõem de modelos diversos de tomadas de três pinos para proteção das pessoas e instalações. Hoje existem mais de 110 configurações vigentes.

De acordo com a entidade, o retorno à situação anterior representa um retrocesso na prevenção de acidentes. Além disso, a mudança já foi assimilada pelo consumidor e uma alteração agora traria ônus à população.

Refletindo sobre todos os aspectos aqui apresentados, nossa expectativa é que o presidente pense melhor sobre suas orientações aos seus assessores, pedindo que analisem o padrão brasileiro de plugues e tomadas, única e exclusivamente do ponto de vista técnico da segurança, deixando de lado o revanchismo político.

Fonte: http://www.abinee.org.br/informac/arquivos/alplug.pdf

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