Análise Econômica, Política & Social
4 DE julho DE 2019 - 11:01

Força no sarilho, Brasil!

Por João Guilherme Sabino Ometto, vice-presidente do Conselho de Administração da Usina São Martinho e membro da Academia Nacional de Agricultura

Dentre os muitos e deliciosos causos das pessoas sábias e simples do campo, lembrei-me de um relato muito interessante: um sitiante da região de Limeira, no interior paulista, teve a grande ideia de usar um balde maior para extrair água do poço, diminuindo, assim, o número de retiradas diárias. No entanto, o vasilhame ficava muito pesado. A solução encontrada não foi reduzi-lo, mas sim a colaboração das pessoas, que somavam forças para girar o sarilho, aquele cilindro no qual se enrola a corda.

A antiga história veio de imediato à minha mente ao ler a declaração sincera e transparente do ministro da Economia, Paulo Guedes, de que o País está no fundo do poço. Aliás, a difícil situação econômica brasileira está claramente dimensionada nas estimativas pessimistas sobre o crescimento do PIB em 2019.

Considerando que nossos problemas não podem ser removidos por mágica ou decretos e que o balde de nossa crise também é muito pesado – transbordante de rombo fiscal, insegurança jurídica, excesso de impostos, burocracia, criminalidade, infraestrutura, educação e saúde precárias -, precisamos adotar a mesma solução inteligente do sitiante limeirense, ou seja, somar forças no sarilho, e com sinergia! Afinal, é necessário que todos o girem no mesmo sentido, pois esforços dispersos, mesmo com ótimas intenções, são invariavelmente condenados ao fracasso.

Assim, a primeira providência é promover urgente entrosamento entre os membros do próprio Governo Federal, no qual se observam, quase diariamente, desencontros de informações e desmentidos, que acabam causando insegurança no mercado e nos investidores. Também é necessária mais articulação entre Executivo e Legislativo.

O debate político não pode ser obstáculo à tramitação de prioridades nacionais e propostas de elevado interesse da população. Se, de modo muito louvável, estamos vencendo o fisiologismo e o “toma lá dá cá”, é preciso manter o diálogo e canais eficientes de negociação na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Em todas as instâncias do Estado, a discussão de questões menores e desnecessárias picuinhas conspiram contra as medidas mínimas que precisamos adotar para vencer a crise e voltar a crescer. Nesse contexto, é prioritária a reforma da Previdência e, logo em seguida, a tributária, bem como soluções até hoje postergadas, como o acesso ao crédito, com juros adequados, redução da burocracia, mais segurança jurídica e melhor ambiente de negócios. Será mais difícil fazer tudo isso sem o foco do poder público nas reais prioridades nacionais.

A democracia e o espírito republicano nos propiciam todos os meios necessários para que a saudável divergência de ideias seja construtiva e não um empecilho. Ainda é tempo, no âmbito do governo e da legislatura empossados este ano, de adotarmos políticas públicas capazes de nos reconduzir ao crescimento sustentado da economia. Porém, para tirar o Brasil do fundo do poço apontado pelo ministro Paulo Guedes, é crucial somar forças no sarilho e sintonizar todas as energias numa agenda viável de desenvolvimento.

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