Reflexões da Redação
21 DE agosto DE 2018 - 17:51

Brasil, um país do outro mundo

Reflexão dos editores deste portal

Há um ano esteve no Brasil a jurista Herta Daubler-Gmelin, que foi ministra da Justiça da Alemanha entre 1998 e 2002, para um debate sobre democracia. Entrevistada após o evento, afirmou que nunca aconteceria na Alemanha de um presidente alvo de denúncia por suspeitas de corrupção não renunciar imediatamente ao cargo. O Brasil “é outro mundo”, ressalvou.

Sobre isso, uma revista brasileira comentou naquela época: pobre Herta, mal sabe que isso é quase irrelevante perto da pornochanchada que tomou conta das instituições brasileiras. E concluiu, afirmando que aqui corrupto grita pega ladrão, torturador do regime militar é exaltado no parlamento, instituições se reúnem às escondidas e reformas são feitas para que tudo continue como está.

Aliás, um destacado jornalista e radialista brasileiro sempre afirma em seus comentários que o Brasil é uma nação diferenciada, onde quase tudo que acontece beira o esquisito, sem algo parecido no mundo. Não raras vezes, diante de notícias estranhas, ele lembra: “existem países do primeiro mundo, do terceiro mundo e o Brasil, que é do outro mundo”.

Realmente, há exemplos gritantes que nos fazem acreditar nisso, como o caso do deputado que, condenado e preso em regime semiaberto, cumpre mandato na Câmara Federal durante o dia e à noite volta para a penitenciária para dormir. Ou seja, ele trabalha legislando sobre assuntos que ele não conseguiu cumprir. Como pode isso?

Há também o caso do deputado que, condenado, cumpre prisão domiciliar e que continua a receber salário e seus pares não conseguem nem cassar seu mandato. É o corporativismo falando alto, afinal mais da metade dos seus colegas de ‘trabalho’ é investigada por crimes cometidos.

Como esses dois exemplos mais recentes, tem muita coisa acontecendo nos bastidores da política que não se explica e que a Justiça não resolve com a celeridade necessária, permitindo que se reverbere – aqui e no exterior – informações negativas que só servem para denegrir a imagem do país e de seus cidadãos.

Porém, o caso mais gritante e preocupante é o que estamos vivenciando neste momento importante para o Brasil, às vésperas das eleições: um condenado em segunda instância pela Justiça, cumprindo pena em regime fechado, lança sua candidatura à presidência da República. Isso só pode ser gozação com a nossa cara!

Em pleno funcionamento da Lei da Ficha Limpa, o TSE aceita a inscrição do candidato e permite que paire entre os brasileiros a dúvida se ele vai ou não ser candidato. Pior, permite que se façam e se divulguem pesquisas onde o dito cujo aparece como opção de voto. Não é possível esperar até 17 de setembro a decisão, ainda mais com a propaganda eleitoral dele flanando pelos meios de comunicação e pelas redes sociais.

Ainda sobre as eleições, vale destacar que 48 deputados federais, investigados pela Lava Jato por crimes de corrupção, estão se candidatando à reeleição, flagrantemente em busca do indecente foro privilegiado.

Há uma infinidade de casos como esses – como o caso dos 48 deputados federais investigados pela Lava Jato que estão se candidatando à reeleição em busca do indecente foro privilegiado -, porém optamos por destacar somente os mais emblemáticos, que evidenciam a nossa fragilidade.

Situações assim trazem consequências graves para o país, gerando mais instabilidade política, jurídica e, principalmente, econômica, pois afasta cada vez mais a possibilidade de atração de investimentos que possam permitir a reativação do desenvolvimento.

Enquanto a indecisão impera, as empresas reduzem ou suspendem qualquer novo aporte, com reflexo direto nos índices de produção industrial. A expectativa de crescimento do PIB para este ano baixou para 1,49%, em função da frustração com a economia, segundo o Banco Central. Porém, se neste segundo semestre prevalecer a desconfiança e o desalento, podemos chegar no fim do ano abaixo deste patamar, o que é irrisório.

Neste contexto, vale citar o levantamento da Fundação Getúlio Vargas que aponta que, diante da piora no sentimento do setor industrial em relação ao cenário atual, a prévia da confiança caiu 0,8 ponto em agosto em relação ao mês imediatamente anterior e foi o menor nível desde o final de 2017.

Por outro lado, o que não deixa de crescer no Brasil é o desemprego. Segundo o IBGE, no segundo trimestre deste ano, faltou trabalho para 27,6 milhões de pessoas no Brasil, o que representa uma taxa de subutilização de 24,6% da força de trabalho. São 27,6 milhões de desempregados e desiludidos, que nem procuram mais emprego.

Como já escrevemos aqui neste espaço, a demora em se tomar decisões tem gerado um grande desalento nos cidadãos. Da mesma forma, os empresários da indústria, do comércio e dos serviços, vivem à espera de uma reviravolta no atual quadro, para que o país retorne à normalidade, permitindo a volta dos investimentos, do crédito e de políticas sérias que tragam a retomada da produtividade e da capacidade de competir.

Só a determinação e a celeridade possibilitarão que se reverta o abandono a que estamos sujeitos, especialmente de programas voltados para a recuperação da saúde, educação, moradia, transporte, segurança e mais um número infindável de condições sonegadas dos brasileiros. O Brasil precisa provar que não é um país do outro mundo.

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