Reflexões da Redação
12 DE abril DE 2019 - 20:30

“A ingnorância é que astravanca o pogressio”

(re)Reflexão dos editores deste portal

Caminhando pelas redondezas de casa, notamos um antigo salão, fechado há pelo menos 10 anos, sendo reformado. Por entre as judiadas portas de aço, perguntamos a dois trabalhadores o que ia funcionar ali. Pouco informados sobre a destinação do imóvel, responderam que seria um bingo, ao que dissemos que bingo é proibido no Brasil. Como resposta, sem titubeio, veio a improvável frase: “bingo é proibido em outros países; aqui pode funcionar, sim”. Incrédulos, seguimos nosso caminho.

O episódio nos fez recordar o famoso bordão “a ignorância é que atravanca o progresso”, tornada popular pelo impagável Odorico Paraguaçú, na novela O Bem Amado, ou Bertoldo Brecha, na Escolinha do Professor Raimundo, do brilhante Chico Anísio. Aliás, a frase ganhou mais fama com a pronúncia “a ingnorância é que astravanca o pogressio”.

E o que se quer dizer com isso? Tudo!!! Como destacou Paulo Ghiraldelli, filósofo e professor da USP, no artigo ‘Emburrecimento Seletivo’, na Folha de S. Paulo, é urgente impedir semicultos de propagar bobagens. Ele diz que, em todo e qualquer país, há três tipos de pessoas: os cultos, os ignorantes e os semicultos. Aliás, ele dedica o texto aos semicultos que, como diz, aumentam de maneira desproporcional. “São aqueles que acham que sabem mais do sabem”.

No desenvolvimento do artigo, Ghiraldelli cita a filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975) que chamava os semicultos de filisteus da cultura, dizendo que, “como falam pelos cotovelos, conquistam os ignorantes para a adesão da informação errada”.

É justamente neste aspecto – dos levados à ignorância – que se encaixa a nossa preocupação com grande parte da população brasileira que, pouco interessada em ler ou ouvir informações de procedência confiável, passa a divulgar o que lhe vem à cabeça, com base na maioria das vezes, em assuntos colhidos aqui e ali como se verdade fossem.

Neste contexto, há uma infinidade de casos que confirmam nossa preocupação, a começar pela ignorância das pessoas que dão pouca importância, por exemplo, aos insistentes apelos para a vacinação. Ok, sabemos que as pessoas devem ter livre arbítrio, porém, não levar seus filhos para receber vacinas importantes é uma gritante ignorância. Provavelmente, foram influenciados por algum semiculto que divulgou pelas redes sociais alguma besteira sobre isso.

Outro exemplo que pinçamos no dia-a-dia está no trânsito, especialmente nas mal cuidadas estradas e nos centros urbanos, onde a ignorância aflora de tal maneira que gera desastres irreparáveis. Motoristas não respeitam os limites de velocidade e, invariavelmente, se envolvem ou provocam graves acidentes, com feridos graves e mortos.

Outra questão que preocupa é a falta de educação ambiental. Preservar a natureza deveria ser uma obrigação de todos, tanto do Estado como nossa. Atitudes muito simples teriam que começar em casa, na família e reforçadas na escola. É pura ignorância não separar o lixo reciclável do comum, atitude que deveria ser levada a sério, independente se o ausente serviço público vai dar a destinação correta à coleta ou não.

Ignorância maior ainda é jogar o lixo em qualquer lugar. As pessoas, nada preocupadas, jogam colchões, móveis, carcaças de geladeiras, eletrônicos e tudo mais no primeiro terreno baldio ou rua que encontram. Não avaliam, entretanto, o problemão que estão criando. Bueiros, córregos e rios transbordam e causam enchentes. Depois, resta chorar quando chega a inundação.

Matas e florestas brasileiras minguam diariamente, desrespeitadas e devastadas por incêndios criminosos e pelo corte ilegal de madeira, fruto da ignorância daqueles que insistem em não compreender que estes atos estão diretamente ligados às mudanças climáticas e ao regime de chuvas.

Aliás, de tempos em tempos, a falta de chuva atinge quase todas as regiões do país, promovendo a seca e a diminuição do fluxo dos rios e, por consequência, do nível das represas. Resultado disso é a falta de água para girar as turbinas das hidrelétricas, causando o aumento na conta de luz dos brasileiros, e, pior, a necessidade de se implantarem os rodízios de abastecimento de água nas cidades. Neste contexto, as alternativas para geração de energia elétrica tem sido relegada a segundo plano.

Voltando ao artigo, é importante destacar o ponto em que Ghiraldelli diz que o Brasil possui pessoas cultas, mas que – por desânimo ou por não darem atenção ao que os semicultos estão fazendo – se omitem diante da barbárie. Entre os semicultos, ele cita o guru político tresloucado, o youtuber abobado, o líder religioso vítima de analfabetismo funcional, o advogado mal formado e outros.

É obvio que a ausência de um Estado preocupado em formar seus cidadãos acaba gerando uma população inteira de pessoas desinformadas e desinteressadas em aprender. A informação correta deveria se sobrepor à desinformação que está por aí, especialmente nas redes sociais.

Num Brasil em que tudo falta, acreditamos que muito poderia estar bem melhor se os governantes se dedicassem à criação e implantação de programas sérios de educação, de incentivo à cultura, de ética, de moral e de respeito a tudo e a todos. Cada pessoa deveria ser incentivada a valorizar a comunidade e a cidade onde mora.

Diferente disso, nos dias de hoje tudo corre solto e cada um faz e diz o que lhe dá na telha. Ignorantes, não atentam à profundidade dessa situação que se espalha por todos os segmentos da sociedade, chegando mesmo às empresas, à economia e à política do país, reduzindo muito a possibilidade do desenvolvimento e do progresso.

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