Reflexões da Redação
31 DE julho DE 2018 - 20:02

A ignorância é que atravanca o progresso

Reflexão dos editores deste portal

Dias atrás, caminhando pelas redondezas de casa, notamos um antigo salão, fechado há pelo menos 10 anos, sendo reformado. Por entre as judiadas portas de aço, perguntamos a dois trabalhadores o que ia funcionar ali.

Pouco informados sobre a destinação do imóvel, responderam que seria um bingo, ao que dissemos que bingo é proibido no Brasil. Como resposta, sem titubeio, veio a improvável frase: “bingo é proibido em outros países; aqui pode funcionar, sim”. Estupefatos, seguimos nosso caminho.

O episódio nos fez recordar o famoso bordão “a ignorância é que atravanca o progresso”, tornada popular ou pelo impagável Odorico Paraguaçú, na novela O Bem Amado, ou Bertoldo Brecha, na Escolinha do Professor Raimundo, do brilhante Chico Anísio. Aliás, a frase ganhou mais fama com a pronúncia “a ingnorancia é que astravanca o pogressio”.

E o que se quer dizer com isso? Tudo!!! Como destaca Paulo Ghiraldelli, filósofo e professor da USP, no artigo ‘Emburrecimento Seletivo’, na Folha de S. Paulo, é urgente impedir semicultos de propagar bobagens. Ele diz que, em todo e qualquer país, há três tipos de pessoas: os cultos, os ignorantes e os semicultos. Aliás, ele dedica o texto aos semicultos que, como diz, aumentam de maneira desproporcional. “São aqueles que acham que sabem mais do sabem”.

No desenvolvimento do artigo, Ghiraldelli cita a filósofa política alemã Hannah Arendt (1906-1975) que chamava os semicultos de filisteus da cultura, dizendo que, “como falam pelos cotovelos, conquistam os ignorantes para a adesão da informação errada”.

É justamente neste aspecto – dos levados à ignorância – que se encaixa a nossa preocupação com grande parte da população brasileira que, pouco interessada em ler ou ouvir informações de procedência confiável, passa a divulgar o que lhe vem à cabeça, com base na maioria das vezes em assuntos colhidos aqui e ali como uma verdade.

Neste contexto, há uma infinidade de casos como esse que confirmam nossa preocupação, a começar pela ignorância das pessoas que dão pouca importância aos insistentes apelos para a vacinação. Ok, sabemos que as pessoas devem ter livre arbítrio, porém, não levar seus filhos para receber vacinas importantes é uma gritante ignorância. Provavelmente, foram influenciados por algum semiculto que divulgou pelas redes sociais alguma besteira sobre isso.

Outro exemplo que pinçamos no dia-a-dia está no trânsito, especialmente nas mal cuidadas estradas e nos centros urbanos, onde a ignorância aflora de tal maneira que gera desastres irreparáveis. Motoristas não respeitam os limites de velocidade e, invariavelmente, se envolvem ou provocam graves acidentes, com feridos e mortos.

Outra questão que preocupa é a falta de educação ambiental. Preservar a natureza deve ser uma obrigação de todos, tanto do Estado como nossa. Atitudes muito simples deveriam começar em casa, na família e reforçadas na escola. É pura ignorância não separar o lixo reciclável do comum, que deveria ser levada a sério, independente se o ausente serviço público vai dar a destinação correta à coleta ou não.

Ignorância maior ainda é jogar o lixo em qualquer lugar. As pessoas, nada preocupadas, jogam colchões, móveis, carcaças de geladeiras, eletrônicos e tudo mais no primeiro terreno que encontram. Não avaliam, entretanto, o problemão que estão criando. Bueiros, córregos e rios transbordam e causam enchentes. Depois, resta chorar quando chega a inundação.

Matas e florestas brasileiras minguam diariamente, desrespeitadas e devastadas por incêndios criminosos e pelo corte ilegal de madeira, fruto da ignorância daqueles que insistem em não compreender que estes atos estão diretamente ligados às mudanças climáticas e ao regime de chuvas.

Aliás, a falta de chuva já atinge quase todas as regiões do país, promovendo a seca e a diminuição do fluxo dos rios e, por consequência, do nível das represas. Resultado disso é a falta de água para girar as turbinas das hidrelétricas, causando o aumento na conta de luz dos brasileiros, e, pior, a necessidade de se implantarem os rodízios de abastecimento nas cidades.

Voltando ao artigo, é importante destacar o ponto em que Ghiraldelli diz que o Brasil possui pessoas cultas, mas que – por desânimo ou por não darem atenção ao que os semicultos estão fazendo – se omitem diante da barbárie. Entre os semicultos, ele cita o guru político tresloucado que fugiu da escola, o youtuber abobado, o líder religioso vítima de analfabetismo funcional, o advogado mal formado e outros.

É obvio que a ausência de um Estado preocupado em formar seus cidadãos acaba gerando uma população inteira de pessoas desinformadas e desinteressadas em aprender. A boa informação deveria se sobrepor ao que está por aí nas redes sociais.

Num Brasil em que tudo falta, acreditamos que muito poderia estar bem melhor se os governantes se dedicassem à criação e implantação de programas sérios de educação, de incentivo à cultura, de ética, de moral e de respeito a tudo e a todos. Cada pessoa deveria ser incentivada a valorizar sua comunidade e a cidade onde mora.

Diferente disso, nos dias de hoje tudo corre solto e cada um faz e diz o que lhe dá na telha. Ignorantes, não atentam à profundidade dessa situação que se espalha e se entranha por todos os segmentos da sociedade, chegando mesmo às empresas, à economia e à política do país, reduzindo muito a possibilidade do desenvolvimento e do progresso.

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